Napoleão Bonaparte tinha uma regra: primeiro entre na batalha, depois descubra como vencer. Foi exatamente o que fizemos.
Recebemos uma meta ousada: criar 10 mil agentes de IA em 6 meses na Prosus e suas empresas do ecossistema. Olhamos para o número e pensamos: por que não 30 mil?
Mas o problema real não era o número. Era a cabeça das pessoas.
Seis meses atrás, a maioria dos 40 mil funcionários do ecossistema Prosus acreditava que criar um agente de IA não era responsabilidade deles. "Isso é coisa do time de AI." Advogados, financeiro, RH, marketing, operações. Todos achavam a mesma coisa.
E aqui mora o insight mais importante deste artigo: a maior barreira para adoção de AI em qualquer empresa não é a tecnologia. É a crença de que "isso não é pra mim."
Decidimos não esperar até ter tudo planejado. Entramos na batalha.
Mas entramos com método. Usamos o framework MAP do Professor BJ Fogg: Motivação, Aptidão e Provocação.
A transformação foi quase física. Dava para ver nos workshops. Pessoas que entravam na sala dizendo "eu não sei nada de AI" saíam uma hora depois com um agente funcionando e os olhos brilhando.
E aí aconteceu algo que nenhuma meta consegue provocar sozinha: as pessoas começaram a ensinar umas às outras. O jurídico mostrava para o financeiro. O RH mostrava para operações. Virou cultura.
Os agentes começaram como estagiários simples. Depois viraram analistas. Depois seniores. Hoje, muitos já operam em níveis avançados de autonomia. Um agente no iFood, por exemplo, faz o trabalho equivalente a 40 pessoas e é usado diariamente por mais de 200 colaboradores.
O resultado? Saímos de 1.600 agentes em janeiro de 2025 para mais de 50 mil hoje. A meta era 30 mil. Passamos com folga.
Se você trabalha com RH e quer criar um ambiente propício para experimentação com IA na sua empresa, aqui vai o que eu aprendi:
Antes de ensinar, mostre. Deixe as pessoas sentirem o impacto de um agente no próprio trabalho. Quando a motivação é real, o aprendizado acontece sozinho.
Se a pessoa precisa de 3 semanas de curso para criar o primeiro agente, você já perdeu. Nossos workshops tinham uma hora. Uma hora e a pessoa saía com algo funcionando. Esse é o momento "eu consigo" que muda tudo.
O Prosus Got AI Talent não foi só uma competição. Foi uma forma de dar visibilidade, reconhecimento e um prêmio aspiracional (Stanford!) para quem se destacasse. Incentivos funcionam. Na dúvida do que dá um “click” para as pessoas, ofereça o máximo que conseguir: reconhecimento, retorno financeiro, aprendizado, eficiência, etc.
Quando a criação de agentes entrou como critério de performance e bônus, o sinal ficou claro: isso não é brincadeira, é estratégia.
Em vez de um time de AI isolado, colocamos especialistas vinculados em cada área. O conhecimento precisa estar perto de quem vai usar. Agora entramos na fase de menos volume e mais valor, estamos desenhando um treinamento de aprofundamento para termos pelo menos uma pessoa especialista em cada área, pois agentes extremamente complexos não se aprende a desenvolver em apenas uma hora.
Napoleão sabia que o plano perfeito não existe. Os primeiros agentes foram simples, imperfeitos, às vezes até bobos. Mas cada um deles era uma pessoa quebrando a barreira mental. E isso vale mais do que qualquer ferramenta sofisticada.
A lição mais importante de toda essa jornada é uma só: o que fez a diferença não foi a ferramenta de AI que escolhemos. Foi a cultura que criamos ao redor dela.
Quando as pessoas perceberam que podiam fazer isso, a adoção explodiu.
A tecnologia muda a cada 6 meses. A cultura que você constrói hoje fica para sempre.
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CHRO
CHRO global com carreira construída em empresas como Prosus, iFood e Kraft Heinz, Gustavo Vitti é um dos principais nomes em gestão de pessoas e cultura organizacional. Já atuou na América Latina, Ásia e Europa, liderando transformações em alta escala. Engenheiro de formação, com formação executiva em Kellogg (EUA), é colunista da Koru com foco em cultura, performance e futuro do trabalho. Acredita que RH estratégico é aquele que conecta dados, tecnologia e liderança para impulsionar resultados sustentáveis.