O Pedaço de Foguete no Meu Bolso: A Curva S e o Novo Papel do RH
Acabo de voltar de uma imersão no Vale do Silício. Levei comigo 75 lideranças de mais de 20 empresas. Fomos beber direto da fonte sobre cultura, inovação e inteligência artificial.
Cada um trouxe na mala um aprendizado diferente, uma visão particular. Mas o que eu trouxe de volta é uma certeza que ressoa como um alerta: o mundo vai acelerar cada vez mais.
A Inteligência Artificial não será apenas uma ferramenta que "usamos". Ela estará tão onipresente nas organizações que a própria definição de força de trabalho mudou. O papel do novo RH, e da nova liderança, é projetar como essa colaboração vai funcionar. (Se isso não acontecer a nossa função pode/deve deixar de existir)
Durante a viagem, segurei um pedaço de metal retorcido de um foguete da SpaceX, recolhido em Boca Chica. Aquele fragmento é a prova física de que o erro é o combustível da velocidade. E velocidade é tudo quando olhamos para a matemática da inovação.
Aqui estão os dois pontos cegos que precisamos esclarecer agora:
1. A Regra Impiedosa da Curva S
O mundo e as empresas não evoluem em linha reta. Elas operam seguindo a Curva S.
Funciona assim: uma tecnologia nasce, cresce, amadurece e atinge um teto de performance. Nesse momento, ela parece invencível e lucrativa. Mas é exatamente aí que uma nova tecnologia, baseada em diferentes princípios, surge e se torna grande competidora. No começo ela parece inferior, mas ela escala rápido e substitui a anterior, tornando o "velho jeito" obsoleto.
A Kodak não "esqueceu" como revelar fotos; ela foi substituída por uma nova curva (digital) que ela ignorou. O mesmo aconteceu com a Blockbuster e o streaming, com a BlackBerry e o touch screen.
Inovação Incremental vs. Disruptiva
Existem dois caminhos para navegar isso:
- Incremental (+10%): Você melhora o que já tem. É seguro, mas não te salva da substituição. Não me entenda errado, esse caminho é superimportante;
- Disruptivo (+10X): Você cria o novo que mata o velho. Você tenta romper com o modelo vigente antes que alguém o faça.
A Inteligência Artificial é uma inovação disruptiva. Ela não melhora seu trabalho em 10%; ela muda a lógica em 10-100X.
Para sobreviver à troca de curvas, a cultura precisa fomentar o erro, a experimentação e o aprendizado brutal. Precisamos de gente sonhando em +10X. Na nossa cultura, queremos que nossas empresas busquem constantemente formas de se "autodisruptar". Por quê?
Simples: É melhor eu antecipar minhas fraquezas e superá-las do que esperar meu concorrente fazer isso por mim.
Cultivar uma cultura que celebra a falha como aprendizado (como aquele pedaço de foguete) é a única vacina contra a obsolescência.
2. O Verdadeiro Trabalho Híbrido: Humano + AI Agent
Esqueça a discussão "Home Office vs. Escritório". Isso é passado. Em muito breve — falo de 6, 12, no máximo 18 meses, operaremos no verdadeiro formato híbrido: Humano + Agente de AI.
Não estamos falando de chatbots simples. Estamos falando de agentes autônomos que executam tarefas, tomam microdecisões e colaboram. Coordenam. Cobram.
E aqui entra o papel crucial do RH e da liderança: Precisamos estar de cabeça aberta para desenhar essa interação. O que funciona nessa dinâmica? Onde a confiança quebra? Onde a máquina alavanca o humano?
"Eat Your Own Dog Food"
A única forma de responder a isso não é com consultorias teóricas, mas experimentando nós mesmos. Se a gente (leia-se você do RH) não entender visceralmente como a AI trabalha com seres humanos, nunca conseguiremos sentar na mesa de decisão. Nunca teremos uma visão clara de como conduzir as pessoas das nossas empresas nessa jornada.
Não delegue o aprendizado. Experimente. Use. Comece por algum lugar.
Abra ferramentas como o Lovable ou similar. Crie seu próprio agente. Sinta a frustração e a potência. Só assim você deixará de ser um espectador da mudança para ser o arquiteto dela.
Acelere. A nova curva já começou.
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