Na era da IA, você é o fazendeiro ou o gado?
Vivemos um momento de polarização silenciosa. Na corrida da inteligência artificial, de um lado estão os fazendeiros, grandes investidores e gigantes da tecnologia que capturam os ganhos de produtividade. Do outro, o gado... nós, a maior parte da população, que corre o risco de ver suas habilidades se tornarem obsoletas antes mesmo de entender o que está acontecendo.
E aqui mora o ponto central: se seguirmos cegamente a dieta do fazendeiro, quanto mais rápido engordamos, mais rápido vamos ao abate.
Quem captura os ganhos da IA
A metáfora pode soar exagerada, mas os dados não deixam dúvidas. Pesquisa do Brookings Institution mostra que a exposição aos ganhos de produtividade da IA está concentrada nas faixas mais altas de renda, com pico em torno de US$ 90 mil anuais e permanecendo elevada para quem ganha seis dígitos.
Em paralelo, Larry Fink, CEO da BlackRock, alerta, em sua carta anual aos acionistas, conforme divulgado pela InfoMoney, que a IA ameaça concentrar riqueza entre as empresas e investidores posicionados para capturá-la, repetindo, em escala ainda maior, o padrão em que o capital cresce para donos de ativos, não para quem vive do próprio trabalho.
Não é teoria da conspiração. É a estrutura do jogo.
O risco para a classe média
Mo Gawdat, ex-Chief Business Officer do Google X, é um dos que soam o alarme mais alto. Em entrevista recente ao podcast The Diary of a CEO, ele foi cirúrgico: "a menos que você esteja no topo 0,1%, você é um camponês. Não existe classe média".
Sua previsão é que, diferentemente das revoluções industriais anteriores, que atingiram sobretudo o trabalho manual, a automação por IA vai desmontar a classe média educada, e o ponto de inflexão pode começar já em 2027.
Gawdat não está sozinho nesse coro: Dario Amodei, CEO da Anthropic, chegou a falar em "white-collar bloodbath", projetando que até metade dos empregos administrativos de entrada podem desaparecer nos próximos cinco anos.
O historiador Yuval Noah Harari dá nome a esse fenômeno: a ascensão da "classe inútil". Não no sentido moral — e sim econômico.
Para Harari, quem perder a luta contra a irrelevância formará uma nova "classe inútil": pessoas inúteis não do ponto de vista social, mas do ponto de vista do sistema econômico e político, separadas por um abismo crescente de uma elite cada vez mais poderosa.
É exatamente esse abismo que se aprofunda quando um punhado de empresas e investidores capturam os ganhos da tecnologia enquanto a maioria absorve os custos da transição.
O desafio do reskilling e da transição do trabalho
O problema, portanto, não é a IA em si. É quem dita as regras de como a adotamos e em que ritmo e com que contrapartidas.
O Fórum Econômico Mundial estima que, se representássemos a força de trabalho global em 100 pessoas, 59 precisariam de reskilling ou upskilling até 2030, e 11 delas dificilmente o receberão, que se traduz em mais de 120 milhões de trabalhadores em risco de redundância no médio prazo.
O mesmo relatório aponta que 41% das organizações esperam reduzir seus quadros em funções expostas à obsolescência induzida pela IA, enquanto 70% planejam contratar pessoas com novas habilidades ligadas à tecnologia.
A transição é brutal, e quem não se move agora paga o preço depois.
A armadilha da “dieta do fazendeiro”
Estamos diante de uma janela curta. O que aprendemos, construímos e questionamos nos próximos dois anos vai definir se seremos reis ou peões nesse novo tabuleiro. Não basta correr atrás dos prompts da moda ou seguir à risca o manual que os próprios donos da tecnologia escrevem. Essa é, precisamente, a dieta do fazendeiro: consumir o que nos é servido, engordar em produtividade aparente e entregar, no final, o próprio valor.
Ser protagonista exige outra postura. Significa se apropriar da IA como ferramenta e não se submeter a ela como destino.
Significa desenvolver as habilidades que o próprio WEF aponta como as mais resilientes à automação: pensamento analítico, criatividade, adaptabilidade e julgamento — essa característica profundamente humana que, pelo menos por enquanto, nos distingue da IA.
E significa, sobretudo, participar do debate público sobre quem captura os ganhos dessa revolução: o futuro não pode ser desenhado apenas por quem lucra com ele.
O xeque-mate é nosso, mas só se jogarmos com as peças certas.
A pergunta central deixa de ser “como usar IA?” e passa a ser “como não se tornar irrelevante em um sistema moldado por ela?”.
Leia mais artigos de Paulo Bivar:


