O trabalho não pediu para ser assim.
Entre o excesso e o desapego, sobrou pouco espaço para quem só queria gostar do que faz.
Houve uma época em que ficar até tarde no escritório era prova de caráter. Quem saía às seis da tarde era visto com desconfiança, como se tivesse menos compromisso, menos ambição, menos algo. Essa geração aprendeu a medir valor pelo cansaço.
Dormir pouco era currículo. Estar sempre ocupado era status. E o resultado dessa conta todo mundo conhece: gente brilhante que se desfez por dentro tentando provar que merecia o lugar onde estava.
Agora o pêndulo foi para o outro lado, e algo nessa correção também incomoda. Fala-se de quiet quitting (demissão silenciosa) como conquista, de fazer o mínimo como libertação, de não se importar como sofisticação. Trocou-se um exagero por outro.
Antes era heroico se matar pelo trabalho. Hoje parece heroico não se importar com nada além do salário no fim do mês. As duas posturas, levadas ao extremo, dizem a mesma coisa, que o trabalho é algo a se sobreviver, não algo a se construir.
Eu discordo das duas. Não acredito que alguém deva viver para trabalhar, e quem tenta isso geralmente paga um preço alto, em saúde, em relações, em tempo que não volta, mas também não consigo fingir que dá para criar algo que valha a pena sem intensidade.
As coisas boas que já vi nascer, dentro e fora das empresas, vieram de gente que se importava de verdade, que estava presente, que colocava energia real no que fazia. Intensidade não é o mesmo que sacrifício. É outra coisa. É gostar o suficiente do que se faz para querer fazer bem.
Talvez o ponto não seja escolher entre arder e apagar. Talvez seja perguntar com que tipo de fogo a gente quer trabalhar. Eu gosto de trabalhar. Gosto do movimento, do problema difícil, da sensação de terminar algo que importava. Isso não me consome, me sustenta. E acho que é exatamente essa diferença que as duas gerações, cada uma do seu jeito, ainda não aprenderam a nomear.
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Managing Director para a América Latina da Alvarez&Marsal
Com mais de 20 anos de experiência em gestão de pessoas, desenvolvimento organizacional e inovação, ao longo de sua trajetória, liderou iniciativas estratégicas em liderança, mentoring, inovação, impacto social, diversidade e ESG, além de criar programas voltados ao crescimento de talentos e ao fortalecimento da cultura organizacional. Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com pós-graduação em Psicanálise e Psicopatologia, combina visão humanizada e foco em resultados, sendo uma defensora ativa da inclusão, da equidade e do empoderamento feminino.