A reinvenção das competências no novo trabalho
Sempre fui muito expressiva.
Com muitas caras e bocas — e ideias demais para guardar em silêncio.
Já me disseram que eu era intensa, “tratora”, brava. E eu ajustei. Várias vezes.
Durante um tempo, achei que crescer profissionalmente era caber: caber no formato, no tom, no papel que esperavam de mim. Mas quanto mais eu me ajustava, mais eu percebia o quanto as empresas, e as pessoas, desperdiçam potência tentando se encaixar em moldes antigos.
O fato é que o trabalho mudou, e os moldes não servem mais.
O World Economic Forum já aponta: as habilidades mais demandadas para os próximos anos são pensamento analítico, curiosidade e adaptabilidade. Pesquisa do LinkedIn traz dado alarmante: 49% dos líderes de RH acreditam que suas equipes não têm hoje as habilidades certas para atingir os objetivos estratégicos.
Esses números traduzem o que muitos líderes sentem na prática: o desempenho do futuro não virá apenas de conhecimento técnico, mas da capacidade de aprender, desaprender e reaprender rapidamente.
Em 2027, aquele mesmo cargo, o gerente de vendas, o analista de RH, o líder de time, não exigirá mais as mesmas competências. E o que fará diferença não será o currículo, mas a prontidão para aprender o que ainda não existe.
Por muito tempo, medimos potencial olhando para trás: o histórico, os resultados, o tempo de casa. Mas o futuro exige que olhemos para frente.
Aprender com agilidade (learning agility), navegar entre contextos diferentes e transferir o que se aprende com rapidez se tornaram sinais reais de potencial. O que antes era “soft” agora é core skill: curiosidade, adaptabilidade e autenticidade são ativos de negócio.
Empresas que prosperam já tratam o desenvolvimento não como treinamento, mas como mecanismo de execução, a chamada “estratégia de otimização humana”: alinhar resultados de negócio e evolução das pessoas no mesmo plano de metas. Skill based é o caminho, criar formatos de programas que foquem nas habilidades geradoras de crescimento para as organizações.
Carreiras que se movem
A carreira deixou de ser uma linha reta. Hoje, é um ecossistema vivo, feito de movimentos, pausas, transições e reinvenções.
O tempo dedicado a habilidades tecnológicas e cognitivas avançadas crescerá fortemente até 2030. Mas, em paralelo, cresce também a demanda por habilidades humanas — liderança, comunicação e empatia — porque são elas que sustentam a adaptação.
É nesse cruzamento que mora o novo RH: aquele que não só contrata e retém, mas redesenha as capacidades organizacionais para lidar com o inesperado. Aprender é importante, mas desaprender talvez seja a competência mais difícil. Renunciar ao que funcionou ontem exige coragem e humildade.
Quando parei de tentar ajustar tanto quem eu era, comecei a ouvir e aprender de outro jeito. Percebi que autenticidade também é ferramenta de gestão: é o que cria vínculo, segurança psicológica e espaço para a inovação florescer.
Autenticidade não é dizer tudo o que se pensa. É alinhar o que se diz com o que se sente. É ter coragem de estar presente, mesmo sem ter todas as respostas.
O futuro das organizações passa pela capacidade de aprender em movimento. Para quem lidera o tema de gente e cultura, o desafio é redesenhar essa régua:
- medir prontidão para aprender, não apenas performance passada;
- criar mobilidade interna como prática, não exceção;
- atrelar reskilling a problemas reais de negócio;
- cultivar times que se movem com autonomia e propósito.
As competências de hoje serão transformadas, e com elas, o conceito de potencial. A pergunta não é mais “quem sabe mais”, mas quem aprende melhor. Que a gente continue aprendendo. Não para caber. Mas para evoluir.
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