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Tecnologia e Inovação

IA não muda só produtividade. Muda hierarquia

21 de May de 2026
Tempo de leitura: 6 min

Nas últimas semanas, uma reportagem da Reuters (“What’s the hottest job in AI right now?”) me chamou atenção por um motivo muito específico: ela não falava de modelo, nem de benchmark. Falava de cargo. Mais precisamente, de um cargo que virou um dos mais quentes da IA hoje: o Forward Deployed Engineer.

A matéria mostra que a demanda por esse perfil explodiu entre 2023 e 2025, justamente porque as empresas perceberam uma coisa simples e incômoda: entre uma demo impressionante e uma transformação real existe um abismo, e esse abismo não se resolve só com acesso ao modelo. Resolve-se com gente capaz de fazer a IA funcionar dentro da realidade.

Esse detalhe importa mais do que parece. Quando um mercado começa a criar, disputar e valorizar um novo tipo de função, ele está dizendo, na prática, onde está o novo gargalo. E o gargalo da IA, agora, já não é apenas pesquisa. Também não é mais só ferramenta. O gargalo passa a ser aterrissagem, integração, implantação, tradução entre capacidade técnica e operação real. Não por acaso, empresas como OpenAI e Anthropic descrevem esses papéis como funções que conectam modelos avançados à complexidade concreta de clientes, processos, sistemas, regras e contexto de negócio.

Ou seja: a IA começou a mudar a empresa não apenas porque automatiza tarefas, mas porque cria uma nova camada de trabalho entre tecnologia e negócio.

A ascensão do Builder

E isso conversa muito com uma ideia que ouvi recentemente em um evento sobre carreira de produto: a ascensão do Builder. Não como cargo formal, necessariamente, mas como um novo sobrenome de carreira. Um jeito de operar. Um profissional que, empoderado por agentes e ferramentas de IA, passa a conseguir fazer sozinho coisas que antes exigiriam várias especialidades. Programar sem ser programador no sentido clássico. Prototipar sem ser designer. Construir fluxo, automação, mockup, experimento e entrega com muito menos dependência estrutural do que antes.

Mais do que ampliar produtividade, esse movimento começa a tensionar duas estruturas ao mesmo tempo: a forma como construímos relevância profissional e a forma como distribuímos capacidade dentro das empresas.

Durante muito tempo, as organizações foram desenhadas sobre a lógica da especialização e do handoff: uma pessoa pensa, outra desenha, outra implementa, outra analisa, outra opera, outra aprova, outra escala. Essa arquitetura fez sentido durante muito tempo porque o custo de fazer era alto, e porque a capacidade de execução estava distribuída em silos de conhecimento relativamente bem delimitados.

Só que agentes e ferramentas de IA começam a tensionar exatamente isso.

Eles não acabam com a especialização. Mas reduzem, em muitos casos, o custo de atravessar fronteiras entre disciplinas. E, quando isso acontece, muda o peso relativo de algumas funções. Ganha valor quem consegue orquestrar. Ganha valor quem transforma ambição em entrega. Ganha valor quem opera com mais autonomia e menos dependência de fila. Ganha valor quem constrói.

Por isso, eu não acho que essa história seja só sobre produtividade. Acho que ela é sobre design organizacional.

O fim das fronteiras rígidas

Se builders passam a existir em escala maior, e se funções híbridas como Forward Deployed Engineer ganham centralidade, a empresa começa a sofrer uma pressão estrutural. Menos camadas apenas coordenando handoffs. Menos fronteiras tão rígidas entre quem pensa e quem executa. Menos separação confortável entre estratégia, produto, tecnologia e operação. Mais papéis híbridos. Mais células com autonomia ampliada. Mais valor concentrado em quem consegue atravessar a cadeia inteira.

E aí vem a pergunta que mais me interessa: o que acontece com o organograma quando um indivíduo, apoiado por agentes, passa a entregar o que antes dependia de uma pequena engrenagem de especialistas?

A primeira resposta é óbvia demais: ganhamos eficiência. Mas a resposta mais profunda é outra. Mudamos a anatomia da empresa. Mudamos o que precisa de time, o que precisa de liderança intermediária, onde estão os pontos de controle, quem concentra contexto, quem se torna multiplicador de capacidade e como o poder circula dentro da organização.

No fundo, é isso que a reportagem da Reuters ajuda a sinalizar. Ela não está só dizendo que surgiu um cargo novo e valorizado. Está mostrando que a IA já começou a produzir uma reorganização silenciosa das empresas. Primeiro aparece uma função híbrida para resolver o problema da implantação. Depois aparece uma geração de builders operando com escopo expandido. Em seguida, o organograma inteiro começa a parecer um pouco antigo para a velocidade, a autonomia e a transversalidade que essas tecnologias permitem.

Talvez, daqui a algum tempo, a discussão mais importante sobre IA nas empresas não seja “qual ferramenta vocês usam?”. Talvez seja outra, bem menos confortável: que tipo de estrutura continua fazendo sentido quando cada vez mais capacidade cabe em menos pessoas, desde que elas estejam acopladas aos agentes certos?

Porque, nessa altura, já não estamos falando só de tecnologia.

Estamos falando de uma nova hipótese de empresa.

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